Chegou o dia da distribuição de talentos no céu. Estávamos todos animados porque era a última etapa antes de encararmos a incrível jornada de viver na Terra como seres humanos. Muitos boatos já rolavam entre todos porque algumas informações já tinham vazado. Por exemplo: quem quisesse ser uma boa pessoa precisava entrar na fila “Grandes Homens” ou “Grandes Mulheres”. Soubera-se, também, que uma das filas seria para adquirir generosidade, algo muito importante para ser alguém evoluído. Enfim, eu estava bem animado, sabendo exatamente o que iria escolher!
Então, eis que chega o dia. O acesso às filas estava guardado e uma multidão se aglomerava esperando o momento em que as porteiras seriam abertas e todos poderiam correr para as filas que mais lhe interessassem. O medo geral era não conseguir as habilidades que já tinham ouvido falar anteriormente que existiriam.
Até que as porteiras abriram e foi aquele pandemônio. Desesperado, eu olhava para o lado e via muitos correndo para fileiras apinhadas. A fila da beleza era a mais disputada. A da riqueza já mal acabara de iniciar os atendimentos e os atendentes tiveram que se organizar para separar brigas intensas que ocorriam. E eu, corria. Desembestado, buscava algo que estivesse dentro dos meus objetivos para ser um bom ser humano. No caminho, observei a fila da força física, que me pareceu importante, mas eu precisava ser um “Grande Homem” e tinha que achá-la antes.
Por fim, encontrei. Não tinha tanta gente lá, para meu alívio. Eu estava afobado, cansado de correr tanto e desesperado para achar o que eu precisava, mas no fim das contas nem precisava de tudo isso porque, ao que parecia, ninguém estava tão focado em ser uma grande pessoa.
Ao sair dali, olhei para trás e vi uma fila com alguns em roda, discutindo e aparentemente com dúvida sobre se deveriam ou não entrar ali. Perguntei por que o debate e alguém me disse: “É que esta é a fila de quem quer pensar muito nos outros”. Na hora fiquei feliz, porque deveria ser a fila da generosidade e eu entrei nela sem nem olhar para a placa. Como tinham poucos candidatos, peguei três vezes a mesma habilidade, já que estava sobrando.
Agora eu estava mais calmo e passava nas filas com mais atenção. Entrei na fila da inteligência junto com um outro alguém; infelizmente tinha uma última unidade dessa habilidade e resolvemos dividi-la ao meio. Melhor um pouco do que nada, né? Só que aí eu descobri que quem pegava a fila da inteligência deveria entrar em outras que definiam qual era o tipo de inteligência que queriam. A emocional era a primeira, então fui logo ali por estar mais perto. Achei a inteligência textual, mas tive a impressão que a minha ficha dessa habilidade estava meio quebrada, mas fiquei assim mesmo.
Por fim lembrei que precisava de algumas outras coisas essenciais que, preocupado com o que eu queria desde antes, acabei esquecendo. A fila da beleza já tinha esgotado todas as habilidades. Soube de alguns que entraram cinco vezes nela. Mas ninguém prometeu que a distribuição seria justa, então me conformei. A fila da felicidade já estava quase fechando, e estavam anunciando uma última ficha que tinha sobrado. Fui lá e entendi por quê: aquela ali estava visivelmente quebrada, mas aceitei mesmo assim.
A fila da riqueza estava toda quebrada e vandalizada e, obviamente, alguns passaram 50, 100 vezes, por isso a da empatia, logo ali na frente, estava ainda tão cheia de fichas a distribuir. Fui lá e peguei umas dez. Mas me avisaram que empatia demais impedia de entrar na fila do amor próprio, mas eu nem cogitava entrar lá mesmo; não via necessidade.
Pelo menos consegui entrar na distribuição de saúde, bom humor (tava meio amassada, mas aceitei mesmo assim), nostalgia e família. Ali do lado tinha a fila “Amigos”, e entrei, mas me avisaram que sem amor próprio ela poderia funcionar só de um lado. Na hora, não entendi muito bem.
Quando tava voltando, ao sair portão afora, encontrei alguns conhecidos com quem eu havia conversado sobre as filas. Pediram para olhar as minhas e fiquei arrasado quando descobri que eu havia entrado na fila HOMEM GRANDE, não GRANDE HOMEM. Ali já me bateu a angústia. Mas ela só piorou quando olharam a ficha PASSIVIDADE e me perguntaram por que eu a quis. Expliquei que não tinha pegado aquilo e esclareci onde ela estava. Avisaram-me, então, que eu havia entendido errado e que passividade é bem diferente de generosidade. “Mas pelo menos você pegou Amor Próprio, não?”, questionaram-me, esperançosos. Disse que não e voltei para casa desalentado.
Agora estou eu aqui na Terra observando um jogo de futebol dos meus alunos jovens. Meu “eu ser humano” não lembra de nada disso, mas meu espírito lembra. E é meu espírito quem reflete: por que eu não entrei na fila da habilidade esportiva e da sociabilidade? Seria tão mais fácil interagir com as pessoas, parecer interessante! Eu me sinto deslocado, apenas parcialmente bom em algumas coisas e nunca bom o suficiente em nada. Eu escrevo, mas minha escrita é pobre, bem como minha inteligência, que é limitada. As coisas que eu gosto não são interessantes para os outros, o que me faz me sentir um peixe fora d’água, sempre deslocado.
Eu sou empático, mas nunca comigo mesmo. Considero ter amigos, mas ninguém me considera da mesma forma. E com essa minha passividade, aceito tudo isso sem questionar e só me afundo num mundinho meu que é o único lugar em que me sinto confortável. Bom, pelo menos eu sou um homem grande. Não bonito — porque aí era ter sorte demais nas filas — mas pelo menos alto. No fim das contas, minha utilidade neste mundo é ser ponto de referência para as pessoas. Talvez isso tenha lá algum valor.











