segunda-feira, 20 de julho de 2026

As filas de talentos

As filas de talentos

Chegou o dia da distribuição de talentos no céu. Estávamos todos animados porque era a última etapa antes de encararmos a incrível jornada de viver na Terra como seres humanos. Muitos boatos já rolavam entre todos porque algumas informações já tinham vazado. Por exemplo: quem quisesse ser uma boa pessoa precisava entrar na fila “Grandes Homens” ou “Grandes Mulheres”. Soubera-se, também, que uma das filas seria para adquirir generosidade, algo muito importante para ser alguém evoluído. Enfim, eu estava bem animado, sabendo exatamente o que iria escolher!

Então, eis que chega o dia. O acesso às filas estava guardado e uma multidão se aglomerava esperando o momento em que as porteiras seriam abertas e todos poderiam correr para as filas que mais lhe interessassem. O medo geral era não conseguir as habilidades que já tinham ouvido falar anteriormente que existiriam.

Até que as porteiras abriram e foi aquele pandemônio. Desesperado, eu olhava para o lado e via muitos correndo para fileiras apinhadas. A fila da beleza era a mais disputada. A da riqueza já mal acabara de iniciar os atendimentos e os atendentes tiveram que se organizar para separar brigas intensas que ocorriam. E eu, corria. Desembestado, buscava algo que estivesse dentro dos meus objetivos para ser um bom ser humano. No caminho, observei a fila da força física, que me pareceu importante, mas eu precisava ser um “Grande Homem” e tinha que achá-la antes.

Por fim, encontrei. Não tinha tanta gente lá, para meu alívio. Eu estava afobado, cansado de correr tanto e desesperado para achar o que eu precisava, mas no fim das contas nem precisava de tudo isso porque, ao que parecia, ninguém estava tão focado em ser uma grande pessoa. 

Ao sair dali, olhei para trás e vi uma fila com alguns em roda, discutindo e aparentemente com dúvida sobre se deveriam ou não entrar ali. Perguntei por que o debate e alguém me disse: “É que esta é a fila de quem quer pensar muito nos outros”. Na hora fiquei feliz, porque deveria ser a fila da generosidade e eu entrei nela sem nem olhar para a placa. Como tinham poucos candidatos, peguei três vezes a mesma habilidade, já que estava sobrando.

Agora eu estava mais calmo e passava nas filas com mais atenção. Entrei na fila da inteligência junto com um outro alguém; infelizmente tinha uma última unidade dessa habilidade e resolvemos dividi-la ao meio. Melhor um pouco do que nada, né? Só que aí eu descobri que quem pegava a fila da inteligência deveria entrar em outras que definiam qual era o tipo de inteligência que queriam. A emocional era a primeira, então fui logo ali por estar mais perto. Achei a inteligência textual, mas tive a impressão que a minha ficha dessa habilidade estava meio quebrada, mas fiquei assim mesmo.

Por fim lembrei que precisava de algumas outras coisas essenciais que, preocupado com o que eu queria desde antes, acabei esquecendo. A fila da beleza já tinha esgotado todas as habilidades. Soube de alguns que entraram cinco vezes nela. Mas ninguém prometeu que a distribuição seria justa, então me conformei. A fila da felicidade já estava quase fechando, e estavam anunciando uma última ficha que tinha sobrado. Fui lá e entendi por quê: aquela ali estava visivelmente quebrada, mas aceitei mesmo assim.

A fila da riqueza estava toda quebrada e vandalizada e, obviamente, alguns passaram 50, 100 vezes, por isso a da empatia, logo ali na frente, estava ainda tão cheia de fichas a distribuir. Fui lá e peguei umas dez. Mas me avisaram que empatia demais impedia de entrar na fila do amor próprio, mas eu nem cogitava entrar lá mesmo; não via necessidade.

Pelo menos consegui entrar na distribuição de saúde, bom humor (tava meio amassada, mas aceitei mesmo assim), nostalgia e família. Ali do lado tinha a fila “Amigos”, e entrei, mas me avisaram que sem amor próprio ela poderia funcionar só de um lado. Na hora, não entendi muito bem.

Quando tava voltando, ao sair portão afora, encontrei alguns conhecidos com quem eu havia conversado sobre as filas. Pediram para olhar as minhas e fiquei arrasado quando descobri que eu havia entrado na fila HOMEM GRANDE, não GRANDE HOMEM. Ali já me bateu a angústia. Mas ela só piorou quando olharam a ficha PASSIVIDADE e me perguntaram por que eu a quis. Expliquei que não tinha pegado aquilo e esclareci onde ela estava. Avisaram-me, então, que eu havia entendido errado e que passividade é bem diferente de generosidade. “Mas pelo menos você pegou Amor Próprio, não?”, questionaram-me, esperançosos. Disse que não e voltei para casa desalentado.

Agora estou eu aqui na Terra observando um jogo de futebol dos meus alunos jovens. Meu “eu ser humano” não lembra de nada disso, mas meu espírito lembra. E é meu espírito quem reflete: por que eu não entrei na fila da habilidade esportiva e da sociabilidade? Seria tão mais fácil interagir com as pessoas, parecer interessante! Eu me sinto deslocado, apenas parcialmente bom em algumas coisas e nunca bom o suficiente em nada. Eu escrevo, mas minha escrita é pobre, bem como minha inteligência, que é limitada. As coisas que eu gosto não são interessantes para os outros, o que me faz me sentir um peixe fora d’água, sempre deslocado.

Eu sou empático, mas nunca comigo mesmo. Considero ter amigos, mas ninguém me considera da mesma forma. E com essa minha passividade, aceito tudo isso sem questionar e só me afundo num mundinho meu que é o único lugar em que me sinto confortável. Bom, pelo menos eu sou um homem grande. Não bonito — porque aí era ter sorte demais nas filas — mas pelo menos alto. No fim das contas, minha utilidade neste mundo é ser ponto de referência para as pessoas. Talvez isso tenha lá algum valor.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Sobre dragões na história de Em Busca do Reinado

Gorarrur: o maior dragão de Em Busca do Reinado

Falar sobre dragões é uma tarefa bastante complicada, pois são seres presentes em várias mitologias e com significados diversos, a depender da cultura em que estão inseridos. Pessoalmente, eu gosto da ideia dos dragões maléficos, fortes, quase indestrutíveis, com tamanhos titânicos e garras amedrontadoras. Contudo, quem ler mais sobre dragões vai verificar que esta concepção não é uma unanimidade.

Por isso é que neste texto vou falar sobre dragões dentro da concepção de Em Busca do Reinado: como eles surgiram no universo da minha história, quais são as características deles e por que eu os concebi desta maneira.

5 coisas que Em Busca do Reinado mostra sobre dragões


Como escritor e amante da literatura fantástica, eu não poderia deixar de inserir dragões na minha história.  Assim, eu busquei uma maneira muito particular de justificar a personalidade e a existência dessas criaturas no meu universo. Vamos conhecer?

1 - Dragões titânicos, sim!

Dragões com medidas colossais não são uma unanimidade no mundo da Fantasia. Consta que o Pai da Literatura Fantástica moderna, J.R.R. Tolkien, considerava que um dragão de respeito teria em torno de 6 metros. Representações de dragões famosos das histórias de Tolkien, como Smaug, tanto em ilustrações quanto na adaptação de O Hobbit feita pelo cineasta Peter Jackson, contrastam com a visão do autor.

Os fundadores do canal do YouTube Tolkien Talk defendem a visão do criador de O Senhor dos Anéis, dizendo que seis metros já é uma dimensão aterrorizante para um ser forte, inteligente e que cospe fogo. Entretanto, na minha visão, essas medidas não dão conta do horror e da imponência que uma criatura como esta provoca.

Na história de Em Busca do Reinado, os dragões são enormes. Gorarrur, o maior que aparece na trama, chega a medir 100 metros de altura da base da pata até o topo dos chifres na cabeça. E essa medida nem é exagerada. Balerion, do universo fantástico de George R. R. Martin, chega a 160 metros de comprimento. Outro gigante da saga dos Targaryen é Vhagar, com cerca de 90 metros. 

Na série infantil “Como Treinar o Seu Dragão” há outros colossais, como a Besta Implacável (158 metros) e Morte Rubra (121 metros). Mas nenhum é maior que o Asa Eterna, que teria em torno de 400 metros e costuma ser confundido com uma ilha ou até uma montanha!

2 - Dragões gigantes fazem sentido, sim

Há quem diga que criaturas tão gigantes não fariam sentido algum. Além de praticamente imortais (vou tratar disso adiante), eles desrespeitam todas as leis da física ou biologia.

Bom, em primeiro lugar é preciso lembrar que estamos falando de histórias fantásticas e esses mundos têm que ter sentido apenas dentro deles, mesmo que tomem liberdades científicas bem escancaradas. Tendo essa premissa, gostaria de justificar o meu pensamento sobre a relação dessas criaturas com as outras que habitam no mesmo planeta.

Vejamos o ser humano. Não podemos dizer que nós somos criaturas lentas. Quando assistimos aos Jogos Olímpicos, por exemplo, temos exemplos fascinantes de pessoas que superam seus próprios limites em termos de velocidade e destreza. Entretanto, qualquer atleta diante de um pernilongo, de uma mosca ou de uma formiga pode ter dificuldade em matá-las. Quer dizer, nossa escala diante de outros animais da natureza nos torna mais lentos, mas isso não significa que somos lentos, de fato. 

E se compararmos uma formiga com uma girafa, por exemplo, teremos uma diferença de tamanho ainda mais brutal. Neste caso, é óbvio que a girafa é indiscutivelmente mais lenta que a formiga. Ainda assim, não existe garantia de que, mesmo pisando na formiga, a girafa consiga matá-la em um solo desnivelado e fofo. Ou seja: sorte da formiga, ainda que muito menor!

Então, diante de criaturas titânicas, ainda que a nossa chance dependa da sorte, ela existe e, dentro de um mundo fantástico, faz sentido, sim!

3 - Dragões só em Tedawer Lorcb

Histórias sobre dragões convivendo no nosso mundo com seres humanos espalham-se em diversas histórias de fantasia, principalmente infantis. Mas no universo de Em Busca do Reinado isso não é possível. Lá eles vivem exclusivamente em Tedawer Lorcb, um continente separado de nós após Righi tentar tomar para si o Diamante Negro, pedra que ele deveria proteger e que concentra as forças destrutivas do planeta.

Quando Grahan usa o Diamante Branco (que concentra as forças leves da Terra) para impedir que o planeta seja destruído, ele desloca aquela região no tempo-espaço, criando o continente de Tedawer Lorcb. O nosso mundo continua a existir, mas essa terra deslocada sofre as consequências da violação dos Diamantes.

Uma dessas consequências é o surgimento dos dragões. Eles são um dos seres destrutivos que passam a existir pelo desequilíbrio causado por Righi. Ao longo da história, acabamos verificando que, aos poucos, do Vazio onde está preso e por meio de seus servos que também surgiram por conta desse desequilíbrio, os dragões começam a ser usados para os propósitos do ex-guardião do Diamante Negro.

4 - Sobre dragões imortais

Dragões são difíceis de matar, sim, mas não são imortais. No universo de Em Busca do Reinado, eles têm um couro rígido e quase indestrutível, ainda que não uniforme; quer dizer, há regiões na couraça em que ela é mais fina. São criaturas violentas e fortes, mas podem ser mortos por magia. Ou seja, um ser humano comum com armas comuns não tem capacidade de liquidar uma criatura dessas, mas com um artefato mágico ou, em vez de um ser humano, uma criatura com poderes mágicos, o dragão pode ser destruído sem problemas.

De novo faço uma relação com a natureza. Um pernilongo não é capaz de matar um ser humano. Mas se ele for um mosquito da dengue, a patologia que ele carrega pode derrubar uma pessoa. Outras criaturas em escala muito menor que o ser humano também dão conta de matá-lo: aranhas, abelhas (para os alérgicos) e escorpiões. Ou seja, diante da circunstância correta, um animal bem menor pode acabar com um muito maior que ele, sim.

5 - Dragões irracionais?

No universo de Em Busca do Reinado, pode até parecer que os dragões são criaturas irracionais. Mas, na verdade, eles apenas têm o instinto de caça, como teria um jacaré, uma onça ou um leão. Claro, movidos pela força maligna que há neles, normalmente a caça que eles fazem é concentrada no que representaria a força inimiga de Righi, o responsável pelo surgimento desses animais. 

Vale destacar que, embora isso não esteja claro no livro, os dragões de Em Busca do Reinado vivem em uma espécie de túnel subterrâneo que liga a Montanha dos Seis Picos com a Cordilheira Sombria. Os moradores da Cordilheira Sombria, inclusive, vivem amedrontados por conta de sombras estranhas que cruzam os céus. Eles acreditam que precisam criar o dobro de animais (cabras, ovelhas e bois) para entregar em oferenda aos deuses e não morrerem. A associação que eles fazem é dessas “sombras no céu” e o castigo dos deuses.

Na verdade, o que os atormenta (sem que eles vejam ou saibam) são os dragões, que se alimentam das criações desses povos. Quem sabe algum dia eu não crie um conto para detalhar essa história, não é mesmo?

Falar sobre dragões é sempre um fascínio

Eu sou maravilhado por essas criaturas e me sinto muito feliz por poder ter criado regras da natureza específicas da minha história para comportar a existência dessas criaturas. Espero que você tenha gostado de conhecer mais sobre dragões de Em Busca do Reinado e a minha lógica para as decisões criativas que tive ao incluí-las no meu universo.

Se você gostou do conteúdo, deixe o seu comentário. E, claro, se quiser saber tudo sobre Em Busca do Reinado, basta falar comigo ou acompanhar o blog que, cada vez mais, pretendo detalhar essas questões periféricas da história neste canal.

Este post foi originalmente publicado no blog de Em Busca do Reinado.